Por que uma biópsia não serve apenas para dizer se é câncer?

Durante muitos anos, o principal objetivo de uma biópsia solicitada pelo Oncologista era responder uma única pergunta:
É câncer ou não é?
Hoje, essa resposta continua sendo importante.
Mas ela já não é suficiente.
A oncologia mudou profundamente nas últimas décadas.
Em muitos casos, saber apenas que existe um câncer não é o bastante para definir o melhor tratamento.
Hoje precisamos entender também:
- Qual é a identidade biológica daquele tumor
- Quais alterações moleculares estão presentes
- Se existem alvos específicos para tratamento
- Se há chance de resposta à imunoterapia
- Se existe predisposição hereditária associada
Em outras palavras:
Dois pacientes podem ter exatamente o mesmo diagnóstico e receber tratamentos completamente diferentes.
É por isso que uma biópsia moderna precisa fazer muito mais do que confirmar um câncer.
Ela precisa gerar informações que orientem decisões.
Qual é a médica que pode ajudar a interpretar biomarcadores?

Sou Dra. Fernanda Telles, médica oncologista clínica, com formação pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), atuação em um dos maiores centros oncológicos da América Latina e experiência em oncologia torácica, gastrointestinal e tumores complexos.
Ao longo dos últimos anos, acompanhei de perto uma das maiores transformações da medicina moderna: a passagem da oncologia baseada apenas no órgão para a oncologia baseada na biologia do tumor.
Na prática, isso significa que meu trabalho muitas vezes começa antes mesmo do tratamento.
Recebo com frequência pacientes que:
- realizaram biópsias sem material suficiente
- não tiveram testes moleculares solicitados
- precisaram repetir procedimentos
- perderam tempo até chegar ao tratamento mais adequado
Em muitos casos, o resultado da biópsia é apenas o primeiro capítulo da história.
As informações mais importantes vêm depois.
O que são biomarcadores?
Biomarcadores devem ser sempre pesquisados pelo Oncologista pois são características biológicas que ajudam a entender como um tumor se comporta.
Eles podem ser encontrados:
- nas células do tumor
- em proteínas específicas
- em alterações genéticas
- no DNA tumoral
Essas informações ajudam a responder perguntas fundamentais:
- Qual tratamento tem maior chance de funcionar?
- Existe alguma terapia-alvo disponível?
- A imunoterapia pode ser indicada?
- O prognóstico é diferente?
- Existe risco familiar associado?
Hoje, em muitos casos, o tratamento do câncer é definido tanto pelo órgão acometido quanto pelos biomarcadores identificados.
Por que dois pacientes com o mesmo câncer podem receber tratamentos diferentes?
Imagine dois pacientes com câncer de pulmão.
Ambos têm o mesmo estágio da doença.
Ambos têm idade semelhante.
Ambos estão clinicamente bem.
Mesmo assim, os tratamentos definidos pelo Oncologista podem ser completamente diferentes.
Um deles pode receber imunoterapia.
Outro pode receber terapia-alvo.
Outro pode precisar de quimioterapia associada.
A diferença está justamente nos biomarcadores.
Hoje sabemos que o câncer não é definido apenas pelo local onde surgiu.
Ele também é definido pela sua biologia.
O que é imuno-histoquímica (IHQ)?
A imuno-histoquímica é uma análise solicitada pelo Oncologista e realizada no material obtido pela biópsia.
Ela utiliza anticorpos específicos para identificar proteínas presentes nas células tumorais.
Dependendo do tipo de câncer, a IHQ ajuda a:
- confirmar o diagnóstico
- identificar a origem do tumor
- definir subtipos específicos
- orientar tratamentos
Em muitos casos, ela representa o primeiro passo para compreender a identidade biológica do tumor.
O que são testes moleculares?
Os testes moleculares sao solicitados pelo Oncologsta e analisam alterações genéticas presentes nas células tumorais.
Essas alterações podem funcionar como verdadeiros motores do crescimento do câncer.
Quando identificadas, podem abrir caminho para tratamentos altamente específicos.
No câncer de pulmão, por exemplo, frequentemente pesquisamos:
- EGFR
- ALK
- ROS1
- RET
- MET
- BRAF
- KRAS
No câncer colorretal:
- RAS
- BRAF
- HER2
- MSI
No câncer de mama, algumas pacientes podem se beneficiar da avaliação de alterações como HER2, PIK3CA e BRCA.
Cada uma dessas informações pode mudar completamente a estratégia terapêutica a ser traçada pelo oncologista.
O que é NGS (Sequenciamento de Nova Geração)?
Uma das perguntas que mais recebo como oncologsta no consultório é:
“Dra., eu preciso fazer NGS?”
NGS significa Sequenciamento de Nova Geração (Next Generation Sequencing).
É uma tecnologia capaz de analisar simultaneamente dezenas ou até centenas de genes relacionados ao câncer.
Em vez de pesquisar uma mutação por vez, o NGS avalia múltiplas alterações em um único exame.
Isso permite identificar alterações que poderiam passar despercebidas em testes mais limitados.
Dependendo do tipo de tumor, o NGS pode:
- ampliar opções de tratamento
- identificar terapias-alvo
- auxiliar na escolha de estudos clínicos
- evitar exames repetidos
- fornecer informações prognósticas adicionais
Mas nem todo paciente precisa realizar NGS.
A indicação depende do tipo de câncer, estágio da doença, disponibilidade de material e impacto potencial no tratamento.
Por isso, a decisão deve sempre ser individualizada.

O que é PD-L1?
O PD-L1 é um biomarcador utilizado principalmente para ajudar a avaliar a indicação de imunoterapia.
Ele não é o único fator considerado na decisão.
Mas pode fornecer informações importantes sobre a probabilidade de benefício de determinados tratamentos.
Por isso, seu resultado deve sempre ser interpretado dentro do contexto clínico de cada paciente.
O que é MSI e por que ele é importante?
MSI significa instabilidade de microssatélites.
É uma alteração biológica presente em alguns tumores, especialmente no câncer colorretal, endométrio e alguns tumores gastrointestinais.
Sua identificação é importante porque pode:
- influenciar o prognóstico
- sugerir predisposição hereditária
- identificar pacientes com maior chance de resposta à imunoterapia
Hoje, essa análise faz parte da avaliação de muitos pacientes com câncer de intestino.
O que significa medicina personalizada?
Durante muito tempo, pacientes com o mesmo diagnóstico recebiam tratamentos semelhantes.
Hoje, a oncologia busca adaptar o tratamento às características específicas de cada tumor.
Por isso, muitas vezes ouvimos o termo “medicina personalizada”.
Na prática, isso significa utilizar informações clínicas, anatomopatológicas e moleculares para selecionar a estratégia terapêutica mais adequada para cada pessoa.
Não significa criar um tratamento exclusivo.
Significa utilizar a melhor evidência científica disponível para aquele perfil específico de doença.
O que acontece quando a biópsia não gera material suficiente?
Esse é um problema mais comum do que as pessoas imaginam.
Quando o material é insuficiente, podem ocorrer situações como:
- repetição da biópsia
- atraso no tratamento
- impossibilidade de realizar testes moleculares
- perda de oportunidades terapêuticas
Por isso, planejar adequadamente a biópsia é tão importante quanto realizá-la.
Na oncologia moderna, não basta obter tecido.
É preciso obter tecido suficiente para responder todas as perguntas necessárias.
O papel do oncologista antes do tratamento começar
Existe a ideia de que o oncologista entra em cena apenas quando chega a hora de iniciar uma medicação.
Na prática, muitas das decisões mais importantes acontecem antes disso.
O planejamento adequado da investigação ajuda a:
- evitar exames desnecessários
- escolher a melhor estratégia diagnóstica
- garantir material adequado para biomarcadores
- reduzir atrasos
- ampliar opções de tratamento
Em muitos casos, a qualidade da informação obtida na fase diagnóstica influencia diretamente todas as decisões futuras.

Uma mensagem final
A oncologia atual é muito diferente daquela de vinte anos atrás.
Hoje não tratamos apenas um câncer de pulmão, um câncer de intestino ou um câncer de mama.
Tratamos tumores com características biológicas próprias.
Por isso, uma biópsia não serve apenas para dizer se existe câncer.
Ela ajuda a revelar quem aquele tumor realmente é.
E quanto melhor entendemos essa identidade, maiores são as chances de escolher o tratamento mais adequado para cada pessoa.
O avanço da oncologia moderna não aconteceu por acaso.
Ele aconteceu porque aprendemos a olhar além do microscópio e compreender os mecanismos biológicos que fazem cada tumor ser único.
É justamente esse conhecimento que permite tratamentos cada vez mais precisos, individualizados e eficazes.